quinta-feira, outubro 29, 2026
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Medida certa, momento errado: como Moraes ofereceu a Flávio Bolsonaro um papel de mártir

por Vivian Koqui

Por Vivian Batizelli Koqui

Na noite de 25 de outubro, Flávio Bolsonaro perdeu a eleição presidencial. Horas depois, uma decisão judicial mudou o enquadramento público da derrota: Alexandre de Moraes determinou que ele entregasse os passaportes e não deixasse o país. A partir dali a disputa já não se dava apenas em torno do resultado das urnas e da investigação em curso. Ganhava força também a narrativa de perseguição política.

Não pretendo discutir aqui, em profundidade, o mérito jurídico da cautelar. A medida tinha uma justificativa apresentada pelas autoridades: a Polícia Federal afirmou ter identificado risco de saída do país, e Eduardo Bolsonaro havia defendido publicamente que o irmão deixasse o Brasil se fosse derrotado. O ponto que me interessa é outro: mesmo quando uma decisão tem fundamento, seu momento e seus efeitos simbólicos também importam.

A ordem saiu na noite da derrota, num ambiente de polarização e antes que Flávio reconhecesse a vitória de Lula. Para uma base que já descrevia as instituições como adversárias, a sequência era simples e potente: perdeu nas urnas e, poucas horas depois, o ministro que há anos ocupa o centro dos ataques bolsonaristas restringiu sua liberdade de viajar. A decisão ofereceu à narrativa de perseguição uma imagem pronta para circular.

Essa narrativa não nasceu naquela noite. Ela já fazia parte do repertório bolsonarista havia anos e não dependia de uma medida contra Flávio para existir. Mas narrativas políticas se alimentam de episódios concretos, e a ordem de 25 de outubro acrescentou um episódio de alto impacto: uma decisão tomada no dia da derrota, um adversário conhecido e um candidato recém-saído da disputa presidencial.

O desfecho ampliou esse efeito. Flávio entrou na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves na noite de 27 de outubro, segundo as autoridades migratórias argentinas. Reportagens informaram que ele seguiu para os Estados Unidos. A Polícia Federal, por sua vez, declarou que não havia registro oficial de sua saída pelos postos migratórios brasileiros.

A ordem não impediu a viagem. Segundo reportagens, Flávio entrou na Argentina com passaporte italiano; veículos também noticiaram que ele teria usado um passaporte diplomático brasileiro cancelado para entrar nos Estados Unidos. A cautelar, portanto, não fechou a rota. Mas alterou o significado político da saída: sem a ordem, a viagem seria uma decisão pessoal; depois dela, passou a ser apresentada por aliados como exílio e resistência. A restrição não criou o discurso de perseguição, mas lhe deu nova matéria-prima.

Há uma objeção importante: juízes não devem decidir com base no cálculo da repercussão midiática. Concordo. A Justiça não pode deixar de agir apenas para evitar que uma decisão seja distorcida nas redes. Mas reconhecer isso não impede discutir o custo político de uma medida, sobretudo quando ela é tomada num momento de grande carga simbólica. A análise da comunicação não substitui a análise jurídica; ajuda a entender o que acontece quando a decisão entra na arena pública.

A cautelar pode ter sido justificável e, ainda assim, ter sido adotada num momento especialmente desfavorável para a disputa de narrativas. Essa é a contradição que merece atenção: a medida não impediu a saída, mas ajudou a enquadrá-la como perseguição para quem já estava predisposto a acreditar nessa versão. Em política, a decisão não termina quando é assinada. Ela continua nas imagens, nas interpretações e nas histórias que outros contam a partir dela.

O bolsonarismo não precisava dessa decisão para falar em perseguição. Mas, na noite da derrota, recebeu um novo episódio para sustentar o discurso. Moraes pode ter agido com uma justificativa concreta; ainda assim, o momento escolhido ofereceu a Flávio Bolsonaro uma imagem de mártir. A medida pode ter sido certa. O momento, politicamente, foi um presente para a narrativa que pretendia conter.

Sobre a autora:
Vivian Batizelli Koqui é assessora de imprensa, estrategista de comunicação e cofundadora da Agência 2205. Com experiência em Relações Públicas nos setores corporativo, jurídico e cultural, escreve e pesquisa sobre comunicação política, ecossistemas digitais e sociologia da comunicação.

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