Por que algumas pessoas se tornam ateias? Essa pergunta parece simples, mas a resposta está longe de ser única. As pesquisas sobre abandono da religião mostram que existem diferentes caminhos até uma posição ateísta ou não religiosa. Para algumas pessoas, o processo começa com o estudo e o questionamento intelectual. Para outras, experiências negativas com a religião têm um papel importante.
Embora a expressão “ateísmo por conhecimento” não seja uma categoria científica formal, ela descreve uma trajetória bastante observada em estudos sobre deconversão, termo utilizado para descrever o processo de abandono de uma crença religiosa.
O caminho do questionamento intelectual
Uma das principais razões encontradas nas pesquisas é simplesmente deixar de acreditar nos ensinamentos religiosos.
Uma pesquisa do Pew Research Center, publicada em 2025, mostrou que, entre os adultos americanos sem religião, 64% afirmam que questionar os ensinamentos religiosos é uma razão muito ou extremamente importante para sua condição não religiosa.
O mesmo levantamento mostrou que 36% apontam especificamente a falta de crença em Deus ou em um poder superior como uma razão importante.
Esses números ajudam a compreender uma trajetória na qual a pessoa não necessariamente abandona a religião por raiva ou rejeição, mas porque passa a questionar suas crenças e procurar respostas por meio de reflexão, estudo, filosofia, ciência ou análise crítica.
E quando a experiência negativa vem primeiro?
Existe também outro caminho.
Experiências negativas dentro de ambientes religiosos podem contribuir para o afastamento. Conflitos com líderes religiosos, decepções pessoais, problemas dentro da comunidade e divergências entre valores pessoais e ensinamentos religiosos podem fazer com que uma pessoa se distancie da religião.
O Pew Research Center encontrou, por exemplo, que 50% dos americanos sem religião afirmam não gostar de organizações religiosas, enquanto 49% dizem não confiar em líderes religiosos. Além disso, 28% relatam ter tido experiências ruins com pessoas religiosas.
Isso demonstra que fatores sociais e emocionais também podem participar do processo.
Um estudo psicológico ajuda a entender a diferença
Um estudo divulgado pela American Psychological Association analisou as razões apresentadas por pessoas que abandonaram a religião.
Os pesquisadores identificaram diferentes tipos de motivos. Cerca de 51,8% dos participantes mencionaram razões intelectuais ou a percepção de que haviam “superado” sua antiga fé. Outros relataram experiências de trauma religioso, adversidades pessoais e experiências negativas com comunidades religiosas.
Isso é importante porque mostra que não existe uma única explicação para a perda da fé.
Para algumas pessoas, o processo pode ser predominantemente intelectual. Para outras, a experiência emocional é mais importante. Em muitos casos, os dois fatores podem estar presentes simultaneamente.
Conhecimento e revolta podem se misturar
Também seria um erro imaginar que essas duas trajetórias são completamente separadas.
Uma pessoa pode ter uma experiência negativa com a religião e, a partir disso, começar a estudar e questionar suas crenças.
O processo poderia acontecer assim:
experiência negativa → questionamento → estudo → mudança de crença → ateísmo
Outra pessoa pode seguir um caminho completamente diferente:
curiosidade → estudo → questionamento → perda da crença → ateísmo
Nos dois casos, o resultado pode ser o mesmo, mas o processo psicológico e intelectual é diferente.
Ateísmo não significa necessariamente rejeição da religião por raiva
Esse é talvez um dos pontos mais importantes.
A imagem do ateu como alguém que simplesmente “ficou revoltado com Deus” não representa todas as trajetórias encontradas nas pesquisas.
Há pessoas que abandonam a religião depois de anos de reflexão sobre questões como:
- existência de Deus;
- problema do mal;
- contradições ou interpretações de textos religiosos;
- relação entre ciência e religião;
- argumentos filosóficos sobre a existência de uma divindade;
- diferenças entre religiões;
- origem das crenças religiosas;
- moralidade sem religião.
Nesse caso, o ateísmo pode ser percebido pela própria pessoa não como uma revolta, mas como uma conclusão decorrente de seu processo de investigação e questionamento.
O que os dados permitem afirmar?
Os dados disponíveis não permitem dizer que existe uma porcentagem universal de ateus que se tornam ateus “por conhecimento” e outra que se torna ateia “por revolta”. As pesquisas utilizam categorias diferentes e estudam populações diferentes.
Entretanto, elas permitem afirmar algo importante: o abandono da religião possui múltiplas causas, e motivos intelectuais estão entre os fatores mais frequentemente relatados.
Em outras palavras, existem ateus cuja trajetória está fortemente relacionada a experiências negativas com a religião, mas também existe um número significativo de pessoas cuja trajetória está relacionada principalmente à dúvida, ao estudo e à perda da convicção religiosa.
No fim, existem diferentes caminhos para o mesmo destino
Talvez a melhor maneira de compreender o fenômeno seja abandonar a ideia de que existe um único “tipo de ateu”.
Algumas pessoas chegam ao ateísmo pela filosofia. Outras pela ciência. Algumas começam questionando os ensinamentos que receberam na infância. Outras passam por experiências negativas dentro de instituições religiosas. E muitas percorrem uma combinação desses caminhos.
O ponto central é que ateísmo não descreve a história que levou alguém a deixar de acreditar em Deus; descreve apenas a posição dessa pessoa em relação à existência de deuses.
A trajetória até essa conclusão, entretanto, pode ser profundamente diferente de uma pessoa para outra.
Fontes: Pew Research Center e American Psychological Association.