Por Vivian Batizelli Koqui
A história política brasileira é marcada pelo coronelismo, pelo voto de cabresto e pela dominação exercida sobre quem dependia economicamente dos poderosos locais. As garantias democráticas e a evolução dos direitos trabalhistas não apagaram essa história. Em vez disso, práticas de coerção podem reaparecer sob novas formas — inclusive nas relações de trabalho e nas redes sociais. É o que se vê nos casos de assédio eleitoral.
No balanço divulgado em 26 de outubro, o Ministério Público do Trabalho (MPT) informou ter recebido 1.937 denúncias relacionadas às eleições de 2026 até o dia 25. Depois do resultado, o órgão recebeu outras 530 denúncias, segundo informação divulgada pela Agência Brasil em 28 de outubro. São 2.467 registros somados a partir desses dois balanços — denúncias recebidas, que não equivalem, por si só, a casos já comprovados. Entre os relatos divulgados estão pressões e ameaças ligadas ao voto, além de publicações em redes sociais incentivando a demissão ou a não contratação de trabalhadores por suas escolhas políticas. (MPT; Agência Brasil)
O episódio expõe uma contradição: discursos que exaltam a liberdade econômica perdem coerência quando a escolha política do trabalhador passa a ser tratada como motivo para pressioná-lo, excluí-lo ou ameaçar sua fonte de renda. Na relação de trabalho, marcada por uma evidente desigualdade de poder, exigir alinhamento ideológico sob ameaça de prejuízo profissional não é apenas uma divergência de opinião. É uma tentativa de usar a posição patronal para interferir na liberdade política de outra pessoa.
Essa interferência também pode assumir formas menos explícitas. Em outro caso que ganhou repercussão, uma profissional de recrutamento relatou nas redes sociais exigências patronais para que não fossem contratadas pessoas identificadas com partidos de esquerda. Para justificar a exclusão, recorreu à Teoria dos Valores Humanos Básicos, desenvolvida por Shalom H. Schwartz, como se a orientação política pudesse, por si só, indicar deficiência moral ou de caráter.
O episódio suscita uma questão que vai além da disputa eleitoral: quando conceitos científicos são usados para associar uma posição política a um suposto defeito moral, a linguagem técnica pode servir de justificativa para a discriminação? A gestão de pessoas não deve transformar convicções políticas em critérios disfarçados de avaliação profissional. A reação de conselhos de classe e órgãos de fiscalização mostra que essa instrumentalização também pode ser contestada publicamente.
A dimensão pública do problema ficou visível em mensagens e vídeos que circulam abertamente após a votação, incentivando empregadores a demitir ou deixar de contratar pessoas por sua identificação política com a esquerda. E os episódios documentados permitem apontar uma contradição específica quando pessoas que reivindicam a liberdade de empreender defendem, ao mesmo tempo, retaliações contra trabalhadores por suas escolhas políticas.
O voto é livre e secreto. A posição de empregador não concede autoridade sobre a consciência política de quem trabalha. No balanço das eleições de 2026, o MPT informou ter ajuizado 59 ações civis públicas, obtendo 52 liminares e firmado 53 termos de ajuste de conduta para enfrentar o assédio eleitoral. A resposta institucional importa; também importa que empresas, trabalhadores e sociedade reconheçam que o local de trabalho não é um espaço de tutela política.
O voto de cabresto não precisa de curral para existir: pode se manifestar sempre que alguém tenta converter dependência econômica em obediência eleitoral. (MPT)
Sobre a autora:
Vivian Batizelli Koqui é assessora de imprensa, estrategista de comunicação e cofundadora da Agência 2205. Com experiência em Relações Públicas nos setores corporativo, jurídico e cultural, escreve e pesquisa sobre comunicação política, ecossistemas digitais e sociologia da comunicação.